A minha filha quando era pequenita tinha um fascínio grande... os caracóis.
Apanhava-os no jardim do infantário e guardava-os no bolso, depois quando a ia buscar á escola ela depositava os bichos no banco traseiro do carro. Descobri esta paixão da minha filha quando um dos bichitos se passeou pelo vidro detrás do carro deixando aquele lastro que lhes é tipico. Descobri o bicho pelo retrovisor e a minha primeira reacção até foi encostar á direita para dar passagem ao caracol, que vinha de certeza esgalhado atrás de mim, mas depois depois achei estranho ele nunca mais ultrapassar.
A coisa passou...
Certo ano, quando regrassávamos de férias, fomos buscar o nosso cão a Benavente onde tinha ficado a passar ferias dos donos, em casa de uma colega minha de trabalho, a Cláudia Ricardo.
Cheáamos a Benavente ao fim de tarde, vindos dos Algarves, e a Cláudia convidou-nos para uma caracolada num tasco típico muito castiço, o “Texas” e nós lá fomos.
Restaurante cheio... Vêm umas cervejas e uma travessa de caracóis. O pessoal saca do alfinete, cata um caracol, espeta o bichito, saca o bicho da casca e quando o bicho está mesmo a chegar á boca ...
A minha filha larga a chorar, como se não houvesse amanhã e entre soluços grita –“não façam mal aos caracóis”... O restauramte inteiro “freezes”, tudo de olhos arregalados na nossa direção com cara de culpados por estarem a degustar aquele iguaria e a minha filha em gritaria soluçante continua – NÃO FAÇAM MAL AOS CARACÓIS. O dono do estabelecimento a ver o dia de negócio a tender rapidamente para a catástrofe vem até á mesa a tentar deitar água na fervura... Grande erro! Ele tinha trazido a travessa de caracóis e, assim que viu o homem, a minha filha parecia estar a ver o Demo ....a intensidade da gritaria era tal que até já estava roxinha de tanto gritar e soluçar...
Pois é... Que vergonha do caraças... Tive que sair do lugarejo com a activista dos direitos animais em braços e no meio da rua lá lhe expliquei que aqueles caracóis não eram iguais aos que apanhava na escola... Aqueles eram plantados de proposito para as pessoas comerem, que eles já nasciam mortos e era só juntar o molho quente na panela e trazer para a mesa.
Lá acalmei a activista que voltou para a mesa vencida, mas não muito convencida e passou o resto do tempo a atazanar os clientes com olhares de ódio por aquela prática, tão vil, de comer caracóis.
Como devem compreender já não vou a Benavente há mais de dez anos...
